Sara · 24 horas

Uma estação de engenharia conectada diretamente à rede corporativa, uma IHM exposta sem necessidade ou um acesso remoto sem controle podem transformar uma falha de TI em indisponibilidade operacional. O modelo Purdue de segurança industrial ajuda a organizar a arquitetura de redes OT para reduzir esse tipo de exposição, estabelecendo limites claros entre sistemas de negócio, supervisão, controle e processo físico.

Mas o modelo não deve ser aplicado como um diagrama pronto. Em plantas industriais, a segmentação precisa respeitar criticidade operacional, protocolos legados, requisitos de manutenção, ciclos de parada e condições reais de campo. Uma separação mal projetada pode dificultar o diagnóstico de falhas e até comprometer a continuidade do processo. O objetivo é criar uma arquitetura defensável, gerenciável e compatível com a operação.

O que é o modelo Purdue de segurança industrial

O Modelo de Referência Purdue organiza os ativos industriais em níveis funcionais. Sua aplicação em cibersegurança permite definir onde cada sistema deve operar, quais comunicações são necessárias entre as camadas e onde devem existir controles de acesso, inspeção e registro de eventos.

Na base estão os equipamentos diretamente ligados ao processo. Sensores, transmissores, atuadores, inversores, relés de proteção e outros dispositivos de campo compõem os níveis 0 e 1. Acima deles, no nível 2, ficam os sistemas de controle e supervisão local, como CLPs, IHMs, sistemas SCADA e estações de operação.

O nível 3 concentra funções de operação da planta, incluindo servidores de aplicação, históricos de processo, gestão de produção, engenharia e, conforme a arquitetura, sistemas de manutenção. Entre a automação e a rede corporativa, a zona desmilitarizada industrial, conhecida como IDMZ, é normalmente usada para intermediar integrações e reduzir conexões diretas entre OT e TI. Nos níveis superiores, estão os sistemas corporativos e de negócio, como ERP, e-mail, serviços de diretório e recursos de nuvem.

Essa divisão não significa que todos os ativos precisam seguir uma estrutura rígida. Uma estação de bombeamento remota, uma planta de cimento com controladores distribuídos ou uma linha de produção modernizada por etapas podem exigir adaptações. O princípio central é preservar o controle do fluxo de informações e impedir que a comunicação mais ampla da empresa alcance diretamente os ativos críticos de operação.

Purdue não é uma norma nem um projeto fechado

Tratar o modelo como checklist costuma gerar dois erros. O primeiro é criar VLANs e firewalls sem compreender quais dados, serviços e protocolos sustentam o processo. O segundo é assumir que a separação visual entre níveis, por si só, resolve os riscos de segurança.

O Purdue é uma referência de arquitetura. A solução final depende do inventário de ativos, da criticidade de cada área, das dependências entre sistemas, da política de acesso remoto e da capacidade da equipe de manter os controles ao longo do tempo. Em instalações existentes, o projeto deve considerar também limitações de equipamentos antigos, firmware, portas de comunicação e disponibilidade de janelas para intervenção.

Como aplicar o Modelo Purdue na arquitetura OT

A implementação começa pelo entendimento do processo, não pela escolha de um firewall. É necessário mapear quais sistemas controlam ativos físicos, quais servidores armazenam dados, quais estações executam programação e quais conexões existem com o ambiente corporativo ou fornecedores externos.

Em seguida, a engenharia define zonas de segurança coerentes. Uma área de utilidades, por exemplo, pode demandar separação da rede de produção principal. Um sistema de tratamento de água pode requerer isolamento adicional entre telemetria remota, supervisão central e infraestrutura administrativa. A granularidade correta varia conforme o impacto de uma indisponibilidade, a necessidade de troca de dados e o risco de propagação de falhas.

A comunicação entre zonas deve ser definida por necessidade operacional comprovada. Em vez de permitir trânsito amplo entre sub-redes, a arquitetura deve limitar origem, destino, porta, protocolo e direção do tráfego. Esse cuidado reduz a superfície de ataque e facilita a investigação quando ocorre um comportamento fora do padrão.

A função da IDMZ entre TI e operação

A IDMZ é um ponto de controle entre a rede corporativa e a rede industrial. Ela evita que um servidor de TI consulte diretamente um historiador, um SCADA ou uma estação de engenharia dentro da operação. Em seu lugar, serviços intermediários podem concentrar a troca de dados, o acesso remoto controlado, a replicação de informações e o monitoramento.

Na prática, essa zona pode receber servidores de salto, réplicas de dados, aplicações de integração e mecanismos de autenticação definidos para cada contexto. A configuração precisa ser analisada caso a caso. Copiar uma arquitetura de outra unidade, sem avaliar protocolos e requisitos de disponibilidade, cria regras excessivas ou brechas que ninguém acompanha.

Também é necessário distinguir acesso de usuário, transferência de arquivos, integração de dados de processo e suporte de terceiros. Cada fluxo possui riscos e controles próprios. Um fornecedor que precisa acessar um sistema para diagnóstico não deve receber o mesmo caminho de rede utilizado por uma aplicação corporativa de relatórios.

Critérios práticos para segmentar uma planta industrial

A segmentação eficiente combina arquitetura, operação e governança. Antes de qualquer alteração, a equipe deve responder perguntas objetivas: quais ativos não podem parar, quais sistemas dependem de acesso entre redes, onde estão as estações de engenharia e quais conexões persistentes existem com ambientes externos?

Um diagnóstico técnico consistente normalmente avalia quatro frentes:

O inventário é decisivo porque muitas plantas têm ativos que não aparecem na documentação atual. Painéis ampliados ao longo dos anos, links temporários que se tornaram permanentes e equipamentos integrados por fornecedores distintos são situações recorrentes. Sem enxergar esses elementos, qualquer regra de segmentação pode interromper uma comunicação crítica ou deixar um caminho de acesso indevido aberto.

A documentação gerada nesse trabalho deve apoiar a operação após a entrega. Diagramas de rede, matriz de comunicação, lista de regras, critérios de acesso remoto e procedimento de contingência precisam refletir o ambiente instalado. Segurança industrial não termina no comissionamento do firewall ou na criação das VLANs.

Segurança sem comprometer disponibilidade e manutenção

Em OT, confidencialidade é relevante, mas disponibilidade e integridade do processo geralmente têm prioridade imediata. Por isso, controles usuais em TI não podem ser transferidos automaticamente para sistemas industriais. Uma varredura agressiva, uma atualização sem validação ou uma alteração de rota durante produção pode afetar controladores, interfaces e comunicação de campo.

Isso não é justificativa para manter redes planas. É um argumento para executar mudanças com método. A implantação deve prever levantamento prévio, testes quando houver ambiente disponível, janelas de intervenção, plano de reversão, validação de comunicação e acompanhamento de start-up. Em processos contínuos, o planejamento de parada e a coordenação com operação e manutenção são parte do escopo técnico.

A gestão de acesso também merece atenção. Contas compartilhadas, notebooks sem controle de conexão, mídia removível e acessos remotos persistentes aumentam a dificuldade de rastrear intervenções. O modelo Purdue contribui ao delimitar onde esses acessos podem ocorrer, mas a efetividade depende de políticas, autenticação, registros e responsabilidades operacionais bem definidas.

A referência oficial da CISA para sistemas de controle industrial reforça a necessidade de segmentação, visibilidade dos ativos e controle de acessos em ambientes OT. Essas recomendações devem ser traduzidas para a realidade de cada planta, considerando normas aplicáveis, condições de processo e restrições tecnológicas existentes.

Quando o modelo precisa ser adaptado

Operações distribuídas, plantas antigas e projetos com integração em nuvem exigem leitura mais cuidadosa do Purdue. Em uma unidade remota, a comunicação por rádio, celular ou rede de terceiros pode exigir controles adicionais no perímetro local. Em ambientes com equipamentos sem recursos modernos de segurança, a proteção pode depender mais da segmentação externa, de listas restritivas e de acesso físico controlado.

Já em projetos novos, é possível incorporar a segmentação desde a fase conceitual, definindo endereçamento, zonas, painéis de rede, infraestrutura de servidores e requisitos de integração antes da instalação. Isso reduz retrabalho e evita que a cibersegurança seja tratada apenas após o start-up.

A decisão entre segmentar por área, por célula de processo, por criticidade ou por tipo de ativo não tem uma resposta universal. O melhor desenho é aquele que reduz caminhos desnecessários, permite manutenção segura e continua compreensível para a equipe que opera a planta todos os dias.

Para a Seabra Automação Industrial, a aplicação dessa arquitetura deve caminhar junto com a engenharia elétrica, a automação, a integração de sistemas e a realidade de campo. Um bom projeto não cria apenas barreiras de rede: ele organiza responsabilidades, preserva a disponibilidade e dá previsibilidade para futuras expansões.

Se sua planta possui redes OT planas, integração crescente com sistemas corporativos, equipamentos legados ou dúvidas sobre acessos remotos, o próximo passo é realizar um diagnóstico técnico da arquitetura existente. Entre em contato pelo WhatsApp para avaliar o escopo de engenharia, os riscos operacionais e as alternativas de adequação para a sua operação.

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